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Sérgio Moro, um elefante em loja de louças.

Só resta ao eleitor, aguardar. 

Precisava Sérgio Moro convocar a imprensa para comunicar a troca de partido? Claro que não. Para os eleitores dele e para os que ele pretende conquistar, os partidos não têm importância. Aliás, acredito que para nenhum eleitor brasileiro. 

Quando festejou a entrada no Podemos e quis, agora, quebrar o constrangimento de ter saído, Sérgio Moro conversa com o mundo da política e da imprensa e não dos eleitores. E, como não está acostumado com o mundo novo, Sérgio Moro anda na campanha como um elefante em loja de louças. A cada discurso, um estrago, a cada decisão, uma vergonha. 

Começo a análise da declaração dele à imprensa com uma frase, que cada um pode interpretar como quiser e atribuir a quem quiser: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Eu fico com Fernando Pessoa no lugar do general Pompeu na autoria da frase, e com a interpretação que tem mais com um general do que com um poeta, para dizer que o navegar com menor risco é o uso correto dos instrumentos de navegação.  O viver, no entanto, será sempre surpreendente, felizmente. Nele nada é preciso, nem o tempo com que se contará com ele.  

A estratégia é um instrumento de navegação, mas nem todo mundo acredita nela. Tem gente que prefere a intuição e a adivinhação; o ouvir sem questionar, quem vende decisões só por achar. 

Sérgio Moro julgou e condenou Lula à prisão e à inelegibilidade, quando instruiu os processos para o julgamento na segunda instância. Se solto e elegível, Lula teria concorrido à presidência em 2018, para ser o adversário principal do candidato Jair Bolsonaro. Os dois teriam ido ao segundo turno, uma vez que o representante do Lula conseguiu. Jair Bolsonaro venceu a eleição e Sérgio Moro tornou-se ministro. Com esse ato, o juiz autorizou a imaginação de os julgamentos terem acontecido com a intenção política para tirar Lula do combate. Pouco tempo depois, o próprio judiciário, na última instância, no Supremo Tribunal Federal, reforçou a imagem quando anulou os processos. 

Sérgio Moro ficou pouco tempo no governo, mas nesse pouco tempo deu apoio incondicional ao presidente, até que começou a perder prestígio. Ele, então, resolveu deixar o ministério e buscar emprego no setor privado, mas numa empresa de consultoria, que atende também casos julgados e condenados por ele. Levantou-se mais uma dúvida sobre a seriedade dos julgamentos. Tudo isso foi-se acumulando na imaginação dos eleitores. 

Após ir e vir, entre o setor público e o setor privado, Sérgio Moro retornou ao ambiente da política com uma festa de comemoração pela filiação ao Podemos e esta semana apareceu para comunicar a filiação ao União Brasil. Armou-se a confusão. Ficou claro, que a filiação dele ao Podemos foi uma decisão precipitada e pelas reações da turma que está no partido para onde ele foi, a nova escolha foi mais precipitada ainda. 

Se olhasse com olhos mais atentos o funcionamento da política, Sérgio Moro teria concluído que filiação a um partido é decisão que os políticos só tomam no último minuto do tempo legal. Não por indecisão. 

Engana-se quem acredita que os políticos demoram a decidir, por serem indecisos e que os políticos mineiros por demorarem mais, são mais hesitantes. Nada disso. Eles e elas sabem que a política é dinâmica e o ambiente se movimenta e os mineiros sabem disso bem mais que qualquer outro político. Então, esperam que as engrenagens se encaixem e, aí sim, decidem. 

O encontro de Sérgio Moro com a imprensa para comunicar a filiação ao partido União Brasil foi ruim e regado com um discurso arrogante e confuso. Bem pior do que o que ele fez para comunicar a filiação ao Podemos, que foi estridente, glamouroso, mas também confuso. 

Sérgio Moro chegou ao ambiente da entrevista meio sem jeito, visivelmente incomodado, vestido num uniforme de candidato, paletó escuro e camisa azul. O mesmo usado no dia da filiação ao Podemos. Ao sentar, ele desabotoou o paletó e nele limpou os óculos. Colocou alguns papéis sobre a mesa onde estavam os microfones da imprensa, usou um sorriso ensaiado, um pigarro e começou a falar. Nem de longe, ele lembrava o candidato glorificado na convenção do Podemos. 

Aí, entrou em campo um texto preparado para ele, sem qualquer cuidado com a imagem que se tem dele. Retirei alguns trechos, para o exercício de um contraditório, como se houvesse um debate. 

  1. “Eu não desisti de nada”. Disse ele. De nada, o quê, exatamente? 
  2. “Sigo firme na construção de um projeto para o país. Temos que falar a verdade. O Brasil está em um ano eleitoral decisivo, no qual iremos escolher que tipo de país queremos ser…”. Qual seria a mentira?  
  3. “Não tenho ambição por cargos”. Quem disse que tem? Ele responde a quem, exatamente. 
  4. “Também não tenho necessidade de foro privilegiado ou outros privilégios, que sempre repudiei e que defendo a extinção. Aliás, não serei candidato a deputado federal.”  Um aliás infeliz, porque remete à ideia de que todos os que são candidatos a deputado federal estão, na verdade, à busca de privilégio e de foro privilegiado. Gente de quem Sérgio Moro depende até para ser candidato. 
  5. “Precisamos, com urgência, da união do centro democrático contra os extremos. Hoje, no Brasil, quem lidera a formação desse pólo político é Luciano Bivar”. Por que Luciano Bivar? Pelo balaio de gatos que ele criou, quando juntou PSL e Democratas? Com que base Sérgio Moro faz tal afirmação?
  6. “Meu movimento político exigiu desprendimento e humildade.” Ficar no Podemos seria uma prova de ambição, cobiça e arrogância? 
  7. “Fui a primeira liderança a fazer esse gesto político em prol da unificação do centro democrático…Precisamos de outros atos de desprendimento de Luiz Felipe D’ávila, João Dória…”. O que ele quer dizer com isso? Sejam com eu. Tenham vocês o mesmo desprendimento e humildade para aceitar a minha candidatura à presidência no lugar de vocês. 

Enfim, este é Sérgio Moro, o juiz que, ao aceitar ser Ministro do Presidente que venceu a eleição, depois de ter enjaulado o principal concorrente dele, deu liberdade para quem, por esperteza e conveniência, assuma a prisão do Lula como uma grande armação, imagem que a Justiça ajudou a construir, quando anulou todas as decisões do juiz da lava-jato. 

No mundo das pessoas que vivem longe da política, essas coisas passam ao largo e aos eleitores só resta aguardar que os políticos acertem o passo, comecem as campanhas e ofereçam razões para receberem os votos dos eleitores. 

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Até quando, um tolerará o outro?

Caramba! Geraldo e Lula; Lula e Geraldo. Isso está dando uma enorme confusão na cabeça de quem acreditou durante anos que o PT do Lula e o PSDB do Geraldo formassem dois pólos distintos na política nacional.

Quem, com mais cuidado, prestar atenção àquilo que chamam de dois pólos no reinado dos reis Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, verá que há nisso um grande engano. O PT e o PSDB disputaram o poder no Brasil com o mesmo propósito, de dar ao Estado Brasileiro, cada um a seu modo, o protagonismo absoluto na vida da sociedade brasileira. Portanto, para os liberais, tando faz dar na cabeça como na cabeça dar.

Foram cara e coroa de uma mesma moeda. Muitos me contestam nas conversas que tenho tido sobre o assunto, com o argumento da privatização, para dizer que o Presidente Fernando Henrique Cardoso foi diferente do Lula no apreço que demonstrou pela privatização.

Mas, rodamos, rodamos e rodamos, e as empresas privatizadas caíram nas mesmas mãos do Estado, representado pelos Fundos de Previdência do Banco do Brasil e de outros organismos estatais. Buscou-se o capital privado, para não se perder o comando nas empresas.

Além do que, o tucano Fernando Henrique Cardoso não privatizou empresas por acreditar no modelo, mas por precisar do dinheiro que a privatização liberaria para suas artes. Artes do Estado na vida econômica da sociedade. No Estado do Rio de Janeiro, o exemplo foi mais latente, com o plano de privatização das empresas do governo estadual. O governador Marcello Alencar, tucano nas hostes do Brizola, privatizou empresas e negócios pela falta absoluta de dinheiro, como aconteceu com a CEDAE no presente. Convicção de que nas mãos do setor privado, os serviços seriam melhor prestados, isso nunca existiu no ninho dos tucanos.

Na campanha de 2006, Lula acusou Geraldo de ser privatista. Geraldo recebeu o discurso do adversário como uma agressão, uma grande mentira e para fazer o contraponto vestiu uma camisa com a estampa do Banco do Brasil. Em 2018, Geraldo voltou ao assunto, para garantir que não privatizaria a Petrobras nem o Banco do Brasil.

Então, tem-se que o PSDB de Geraldo, de Fernando Henrique, Aécio e outros tucanos, está no mesmo pólo do PT de Lula, quando o Estado é o tema. Por conveniência, em lados opostos, os dois disputaram a Presidência da República em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. O PSDB levou em 94 e 98 e nunca se incomodou em não levar no restante. O jogo foi jogado assim, até que surgiu alguém que entrou na briga contra os dois e levou vantagem. Aí não houve como não se unirem.

Nesse caso, precisaria Geraldo deixar o PSDB? Houve necessidade, sim, porque no ninho tucano pousou uma ave predadora, João Dória. Os tucanos não conseguiram expulsá-lo, então, bateram as asas, mantiveram a identidade e em nome dela, há pouco tempo, Lula e Fernando Henrique sentaram-se para jantar a convite de um ministro comum aos dois, o senhor Nelson Jobim. Ministro da Defesa de um e da Justiça do outro.

Em 2018, o povo escolheu Jair Bolsonaro, porque não queria entregar o governo ao PT, nem ao PSDB. Agora, existe gente por aí a pregar que o povo, novamente, não entregue o governo ao PT, mas também não ao Jair Bolsonaro. Ou seja, temos uma plêiade de candidatos que quer repetir o feito do Jair Bolsonaro na eleição passada. Ser o “nem um, nem outro”.

No entanto, mesmo sendo, juntos, representantes de um pólo, Lula e Geraldo, certamente, terão problemas com seus liderados, porque, durante todos os embates nacionais, as disputas foram com elevado nível de crueldade. No ambiente incomum dos dois, poderá ocorrer o que aconteceu na disputa pelo poder entre a turma do PMDB, de Ulysses e os dissidentes do PFL, na eleição do Presidente Tancredo Neves. A briga por espaços foi duríssima, a ponto de, em alguns momentos, inviabilizar o governo Sarney, herdeiro dos acordos que Tancredo fez para acomodar todos.

Neste ponto do tempo, é hora de chamar Edmund Burke para a conversa. Conservador liberal do século XVII , ele alertou os políticos quando em fase de composições: “Existe um limite depois do qual a tolerância deixa de ser uma virtude”. Aí, então, cabe perguntar, para decidir o voto: até onde irá a tolerância do Geraldo com Lula e do Lula com o Geraldo? Em que momento da convivência dos dois, a tolerância levará ao rompimento ou à subserviência?

O slogan da campanha da chapa Lula e Geraldo diz muita coisa para os liberais, quando observado com a lembrança do que foram as seis disputas presidenciais entre as duas correntes: ‘Não vamos desistir do Brasil”.

O tempo dirá.
Boa semana para todos.

Foto: Reprodução PT. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

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Vidente Allan Richard Way

O vidente Allan Richard Way. 

Você já ouviu alguma coisa sobre um vidente famoso chamado Allan Richard Way? O jornalista Carlos Heitor Cony, um profissional que, enquanto viveu, fez um trabalho muito bom na imprensa brasileira, entrevistou o vidente, num subúrbio de Londres, onde ele residia. 

Segundo Carlos Heitor Cony, a casa do vidente foi construída no estilo Tudor, o mesmo adotado pelas universidades de Oxford e Cambridge. Allan era indiano e estava radicado na Inglaterra há muitos anos. Cony fez várias matérias com as previsões do vidente, no tempo em que estava na revista Manchete, que existiu até o ano 2000, se não me engano. 

Outros jornalistas tentaram entrevistar o vidente, sem sucesso. A TV Globo, por exemplo, pediu à sua diretora da sucursal em Londres para localizar Allan Richard Way e ela só tinha, como indicações, o bairro, a rua e o estilo da residência. Ele nada conseguiu e não convenceu seu chefe da impossibilidade absoluta. Por isso, ela perdeu o emprego e houve quem falasse à boca pequena na imprensa brasileira, que Allan Richard Way já sabia disso antes do fato acontecer. 

Allan Richard Way se tornava famoso a cada nova matéria assinada pelo Carlos Heitor Cony, mais pelo mistério e do que pelas adivinhações, já que acertava pouco ou quase nada. 

Uma vez, Allan Richard Way previu o desmoronamento de uma das pilastras da Ponte Rio-Niterói. Eu me lembro bem desse momento. O governo federal interditou a ponte por quase uma semana, para fazer as revisões nos pilotis. Mesmo depois da verificação técnica exaustiva, as autoridades liberaram o tráfego com muito receio ainda. 

Até que um dia, Carlos Heitor Cony abriu o jogo para dizer que Allan Richard Way era uma grande mentira, uma gozação, assunto que facilitava a vida dele como jornalista obrigado a criar, diariamente, colunas de notícias, para atender o patrão, Adolpho Bloch e evitar aborrecimentos com um chefe de redação que queria tê-lo pelas costas. 

A história do vidente Allan Richard Way é boa para os tempos de agora, quando tem gente que prega com toda a convicção do mundo, que esse tal de Fake News é coisa moderna, criada pela internet. Qual o quê! 

A imprensa do mundo todo tem várias situações, por vezes trágicas, por vezes cômicas e por vezes românticas, de mentiras bem contadas, deixando com o povo o direito ou prerrogativa de descobrir a verdade. Moderno é o mau-humor latente na sociedade brasileira, que perdeu a graça e a capacidade de apreciar  o que é cômico e divertido. Tudo, rigorosamente, tudo, hoje em dia é motivo para brigas, confusões e atritos. O brasileiro perdeu o bom-humor e a paciência. Isso, nem o vidente Allan Richard Way foi capaz de prever. 

Vejam vocês. Hoje, até a Suprema Corte foi provocada para cuidar das notícias que não cheiram bem, porque, o diabo do Estado Brasileiro tem a certeza de que nós, brasileiros e brasileiras, somos impotentes, ignorantes o suficiente para não conseguir avaliar corretamente o que nos falam os políticos. Como isso tem dado certo, daqui a pouco, a Suprema Corte cuidará de dizer o que a imprensa pode ou não comunicar, porque, toda comunicação, segundo os supremos ministros,  precisa ser fidedigna e sem humor, de preferência. 

Portanto, a imprensa que aplaude a censura aos políticos, logo, logo, sentirá o peso da censura. Lula da Silva sonha com o dia em que só se poderá dizer qualquer coisa sobre ele se forem elogios. 

Hoje, Allan Richard Way seria um foragido da Justiça Brasileira residindo em Londres.

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Não é a economia!

Tem sido costume no Brasil os candidatos à presidência anunciarem, de pronto, quem será seu orientador para a economia, alguém que em razão da campanha do Presidente Jair Bolsonaro, e do sucesso de peças publicitárias de um posto de gasolina, ficou com o apelido de “Posto Ypiranga”. 

A economia esteve também como motivo da vitória de Bill Clinton numa campanha de sucesso inacreditável contra um presidente com um governo bem avaliado, George Bush. James Carville, estrategista da vitória, sintetizou a causa do resultado numa frase: “É a economia, estúpido !” 

Serei atrevido com os candidatos à presidência do Brasil, sem ser agressivo. Tiro o “estúpido” da frase de Carville e incluo a negativa, para dizer: Não é a economia! 

O povo brasileiro tem sido infeliz nas escolhas que faz nas eleições,  porque a pobreza é o motivo condutor das decisões. Por um “bolsa” qualquer e promessas de ter uma vida um pouco melhor e voz sobre os costumes, o brasileiro tem entregue o voto. 

A pobreza é o nosso principal problema e, por paradoxal que pareça, ela está longe de ser uma questão só, exclusivamente econômica. Se fosse, os programas sociais, que mudam de nome a cada governo, mas não mudam de roupa, já teriam resolvido a pobreza. 

Alguém que conheça com profundidade o mundo opaco das teorias econômicas conseguirá vencer a pobreza, se no Brasil os pobres nascem pobres e nada se faz para que saiam da pobreza a ponto de seus filhos e netos não nascerem pobres? De onde virá a oportunidade para a mudança do destino? 

Virá do resultado dos balanços de pagamento, das reservas internacionais, da inflação, dos superávits na balança comercial, do valor do real frente ao dólar? Ou do que acontecerá com a economia mundial depois da guerra da Rússia com a Ucrânia ? 

Na vida dos próprios candidatos e da candidata à presidência está a resposta. Uns mais, outros menos, todos tiveram oportunidade de aprender alguma coisa nas escolas por onde passaram. 

Lula aproveitou-se de uma escola profissionalizante para ser torneiro mecânico, assumiu a presidência de um sindicato, comandou uma greve, negociou com o governo, criou um partido político e disputou eleições. 

Jair Bolsonaro entrou na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, tornou-se capitão, comandou uma greve, ingressou na política e hoje é o Presidente da República. 

Sérgio Moro cursou Direito, fez-se Juiz, Ministro e agora é candidato à presidência. Ciro Gomes deixou a cidade natal em São Paulo, fixou-se na cidade de seus pais no Ceará, estudou, cursou uma universidade pública, etc, etc. 

Simone Tebet? Única mulher na disputa. Seus avós deixaram a cidade natal. Seu pai, político, foi antes promotor público, porque foi formado numa Universidade Pública, como aconteceu com a filha Simone que, depois, tornou-se Senadora, e agora é candidata a Presidente. 

Luiz Felipe D’avila fez o ensino médio num subúrbio de Chicago, estudou Ciência Política em Paris e Administração Pública em Harvard. Criou o Centro de Liderança Pública, CLP, e é candidato à Presidência.  

Já temos exemplos bastantes para mostrar aos candidatos e à candidata à Presidência que, se ela e eles querem mesmo, como dizem, acabar com a pobreza e o mais cruel legado dela, a ignorância sobre como se faz um país melhor,  o primeiro nome a escolherem para suas equipes de trabalho não deveria ser dos economistas, mas de gente que sabe o que fazer com a Educação. 

Jair Bolsonaro tomou de Cristo um dos slogans de sua campanha: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Mas, como fazem para conhecer a verdade aqueles que não sabem ler e se sabem, sequer interpretam corretamente o que leem? 

Com boa educação ou até com uma educação razoável, quem lê a frase dita por Cristo saberá que ela ocorreu algo depois de Cristo ter repreendido os escribas e fariseus que queriam apedrejar uma mulher adúltera: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra contra ela”. Opa! Como isso poderia ser útil ao usuário da frase sobre conhecer a verdade! 

Portanto, eu diria ao James Carville: Por aqui não é a economia, “estúpido!” É a educação! Sem ela, a economia andará sempre a depender da caridade do Estado, porque é ela que, verdadeiramente, liberta, porque só ele faz com que alguém conheça a verdade e estabeleça a diferença essencial entre ela e a mentira comum às campanhas eleitorais.   

Para provar que a educação no Brasil é uma lástima, dispenso-me de  tomar o tempo de vocês, leitores, com dados que estão disponíveis e acessíveis a todos. Basta que se busque a ajuda do google. E, se quiserem algo mais sofisticado, o google também indicará. 

As escolas brasileiras se servem a alguém, servem aos políticos que inauguram os prédios e corporações. O Brasil ainda é o país das salas de aula entregues só aos professores. Eles e elas entregues à própria sorte. São ambientes jurássicos num mundo onde a tecnologia muda rápido e o conhecimento se torna essencial para encontrar lugar no mercado de trabalho. 

Quem cuidará da Educação no projeto de governo da candidata e dos candidatos à presidência que se apresentam ao povo brasileiro? Com quem está ou ficará a batuta da Educação? Enquanto esse dado for irrelevante diante do maestro da orquestra e o primeiro violino estiver entregue ao “Posto Ypiranga”, esqueçam. O Brasil não será a pátria da liberdade e tão pouco da ordem e do progresso. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Curiosidades: Eleição no Vaticano

Como Putin chegou ao poder na Rússia? Em 1999, eleito Primeiro-Ministro. Depois, eleito Presidente e é nessa posição que ele decidiu invadir a Ucrânia. Então, posso dizer que Putin cumpre um mandato conferido pelos russos para fazer aquilo que interessa aos russos. Será? Quando a gente trata de eleições, precisa lembrar que elas acontecem até para a escolha de um Papa, num processo parecido com o que acontece em todo canto. Verifique.

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Campanhas sem liberdade de expressão

Sou livre para me expressar como quiser e externar com liberdade tudo o que passa pela minha cabeça. É isso que se entende por livre manifestação do pensamento e no que consiste o debate sobre liberdade de expressão, um assunto que explodiu durante a semana passada, por causa do Flow Podcast. 

O sentido da liberdade é: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, como foi dito pelo apóstolo Paulo à Igreja de Corinto, sobre alguns costumes dos crentes situados ali. Ou seja, uma pessoa pode manifestar livremente o pensamento, mas como isso produz um ato, esse ato gera consequências. 

Monark pensou o que quis e disse o que pensou. Provocou forte reação negativa no público, que pressionou os patrocinadores do programa e eles retiraram-se. Monark e seu sócio pagaram o preço. Se com a pena completa ou não, isso é relevante para a tese de que a liberdade tem consequências, para o bem e para o mal.  

Ora, a liberdade com limites não é liberdade, mas a liberdade sem consequência, essa sim, reprime a liberdade do outro. Nesse ponto entra no debate um conceito de impunidade. A manifestação do pensamento que se materializa em atos que prejudicam terceiros, deve ser punida, não reprimida. 

Quando alguém é impedido de manifestar livremente o pensamento, temos um ato de censura, que na modernidade recebeu um título adicional: cancelamento. Ou seja, a partir do momento que a manifestação do pensamento de uma pessoa, materializada em atos ou não, prejudica outra pessoa, esse alguém que prejudica perde o direito à livre manifestação. 

A ninguém deve ser negado o direito de manifestar livremente o pensamento, nem por precaução. Uma sociedade democrática é aquela que pune a manifestação de alguém que cause prejuízo a outro alguém, mas não a reprime, a menos que ela possa ser materializada numa atitude de violência física. “Bons vizinhos dependem de boas cercas”, disse Margareth Thatcher. 

Dito isso, ingresso nas campanhas eleitorais, porque nelas quase toda forma de manifestação do pensamento está proibida e a que é liberada, depende da interpretação dos juízes. A censura, monstro abominável, vive muito bem abrigado nas campanhas eleitorais. 

A manifestação livre do pensamento deveria ser a essência da comunicação nas campanhas eleitorais, porque nesse ambiente ela tem o objetivo adicional de esclarecer – de colocar às  claras todas as coisas, para que os eleitores possam decidir com as informações que precisam. Para decisões corretas, informações corretas. 

O modelo das campanhas eleitorais no Brasil reprime a manifestação do pensamento dos candidatos até mesmo nos debates promovidos pelos canais tradicionais de comunicação. Também desestimulam a participação dos eleitores no processo, pela proibição do uso de material criativo de campanha. Perseguir o adversário é mais fácil do que conquistar eleitores, numa situação em que a eleição é decidida pela rejeição ao outro e não pelo acolhimento. 

O resultado está aí, com eleitores encurralados entre o ódio de um candidato e o ódio do outro, numa situação de absurda polarização, porque promover o ódio e o rancor é mais fácil do que convencer o eleitor sobre o melhor caminho a tomar. 

Boa semana para todos.

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Flow e a fala sobre nazismo

No podcast da semana, Jackson Vasconcelos e Livia Andrade falam sobre a polêmica envolvendo o Flow Podcast, sobre a fala do anfitrião do programa, Monark, quando o mesmo se disse favorável à criação do Partido Nazista durante comentários sobre liberdade de expressão durante um bate-papo com a deputada federal Tabata Amaral (PSB) e Kim Kataguiri (Podemos).

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Desta vez, com que presidente iremos?

Recebi a notícia do apoio do Prefeito Eduardo Paes ao Ciro Gomes e ao Rodrigo Neves quando comecei a escrever o artigo da semana. Lupi presente. Triste notícia, porque prova que o Rio continua a prender por aqui a alma do Brizola, referência de quase tudo o que é ruim na cidade e no estado e também por mostrar que o Prefeito perde a oportunidade de ser um líder por si mesmo. A bandeira de seu partido no estado. É uma pena. Eduardo Paes está pronto, tem qualidade e experiência política e administrativa suficientes para ser o cabeça de um grupo político e de um partido e não mais um coadjuvante. 

Mas, sigamos o caminho que tracei para o texto de agora. 

Em 1989, Fernando Collor de Mello foi eleito Presidente da República e no Estado do Rio de Janeiro obteve três vezes menos votos que Lula. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente no primeiro turno, com apenas três mil votos a menos que Lula no estado. Em todas as outras eleições os cariocas e fluminenses deram ao vencedor uma larga margem de votos sobre o derrotado. Confira: 

  1. 1994: Fernando Henrique – 3.102.664 votos 
    Lula – 1.689.772 votos 
  1. 2002: Lula – 6.318.104 votos, 
    Serra – 1.682.472 votos 
  1. 2006: Lula – 5.532.284 votos 
    Alckmin – 2.406.487 votos
  1. 2010: Dilma – 4.934.077 votos 
    Serra – 3.223.891 votos 
  1. 2014: Dilma – 4.488.183 votos
    Aécio – 3.681.088 votos
  1. 2018: Bolsonaro – 5.669.059 votos
    Haddad – 2.673.386 votos. 

Além de votos, o povo do estado envia dinheiro para o trabalho dos presidentes. Quase 15% do que é arrecadado pela União acontece aqui. 

Diante disso, seria de se esperar que os presidentes e a presidente tivessem dado ao povo do estado algum reconhecimento. Mas, o Rio, cidade e estado, sequer na retórica das campanhas estiveram presentes e pelo andar dos movimentos essa prática permanece. O Rio foi esquecido mesmo quando, recentemente, por coincidência, os três poderes da União estiveram sob o comando de gente daqui. 

Paulo Guedes, o ministro forte da Economia, passeia em Ipanema, curte o nascer e o pôr do sol e ponto final. Jair Bolsonaro faz de São Paulo e do nordeste a sua avenida. Rodrigo Maia bateu asas. Fux está lá, mas ainda não está aqui. As agendas do Rio não são a agenda dele. 

Quando assumem a função, os presidentes cobrem o Rio com eventos internacionais, porque a cidade lhes oferece o melhor palco do mundo. E, nós, aqui, ficamos agradecidos, festejamos, sem exigir as contrapartidas essenciais para fazer dos eventos, pelo menos, legados permanentes. Fazemos as festas, colocamos os presidentes nos palcos, batendo palmas para os ministros e quando tudo termina, ficamos com o dever de, sozinhos, dar um jeito na casa. 

E vejam que o Rio precisa de pouca coisa. Eu diria de uma coisa só: que a União cuide do que lhe cabe na Segurança Pública, assim como faz no tempo dos eventos internacionais. E onde está o nosso problema na segurança pública? 

Há os que dizem ser o fato de, entre o povo, uns serem ricos demais e outros pobres miseráveis. Se for esse o problema, podemos cuidar dele nós mesmos. Basta que se acabe de uma vez por todas com a naturalidade com que as armas estão nas ruas, em todo canto. E o modo como se faz grande fortuna aqui originada no crime. Armas e lavagem de dinheiro!

As armas são os instrumentos de valentia das milícias, dos traficantes, do abuso de autoridade e das facções. Olhe lá a quem cabe evitar isso. Está com todas as letras numa lei de 2003, a 10.828. 

Para evitar que o dinheiro ilegal corra fácil para financiar as armas, há os olhos do Conselho de Controle das Atividades Financeiras, COAF, que já esteve no Ministério da Segurança Pública e Justiça e por hora nem sei por onde anda, porque, na queda de braço entre Guedes e Moro deve ter ido bater no Banco Central. 

Mas, o COAF fez notícia por aqui, mas só para dizer que existe um Senador, que quando deputado, junto com os colegas, tomou dinheiro de quem trabalhava para eles. É o COAF, no papel de partido político de oposição. 

O Rio precisa que seus líderes exijam mais dos presidentes. 

Até a próxima.

*Artigo publicado no Diário do Rio.

Por Jackson Vasconcelos

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Eleição no Rio: Na dúvida, não ultrapasse

Quem lida com segurança pública, como ofício, curiosidade ou esperança, seja para prestígio intelectual ou apresentar soluções, deve ler o capítulo dez do livro “Sergio Moro – Contra o Sistema da Corrupção”, onde está o relato dele sobre o trabalho que ele e a equipe fizeram e tentaram fazer na segurança pública.  

Lá está demonstrada com resultados, uma estratégia, que se aplicada às políticas públicas de qualquer natureza, oferecerá sucesso. É o modelo de ínsulas, que conheci ao ler Alexandre, o Grande e as considerações e aulas do estrategista Luiz Fernando da Silva Pinto, melhor intérprete dele. É o modelo de amostragem. Separa-se do ambiente onde está o problema, um território específico, uma miniatura representativa do todo, e a ele se aplica a solução. Mede-se os resultados, identifica-se os entraves, faz-se os ajustes e aplica-se no todo.   

Sergio Moro disserta sobre o projeto “Em Frente Brasil”, criado por ele, e as cidades de Ananindeua, no Pará; Goiânia, em Goiás; Paulista, em Pernambuco; Cariacica, no Espírito Santo; e São José dos Pinhais, no Paraná, formaram o campo de testes do baixo-relevo que seria utilizado no Rio de Janeiro. Movido pela vaidade pessoal, Moro não resistiu aos trancos do presidente, pegou o boné e caiu fora, antes de aplicar o modelo no Rio de Janeiro. O Rio tem disso. 

As notícias das atitudes firmes do Governo do Estado contra as milícias e nas ações de retomada dos territórios que estão há muito tempo sob o comando do crime indicam que o governador Cláudio Castro fez uma boa escolha ao designar Allan Turnowski para a Segurança Pública e que o delegado conhece o modelo e aplica bem o modelo de ínsulas, que dará certo. Já se fez assim com as UPPs, que não deram certo, porque os resultados das ínsulas fizeram subir o grau de vaidade e arrogância nos aplicadores do modelo. Eles cantaram vitória antes do término da guerra. O Rio tem disso. 

Tive a oportunidade de estar com o delegado Allan algumas vezes – poucas – durante a campanha de 2018, no cumprimento da decisão do Indio da Costa de construir um bom plano para a segurança pública. Indio foi candidato ao Governo do Estado com uma campanha que, dividida com Eduardo Paes, facilitou a vitória do Wilson Witzel e, de modo indireto e inesperado, colocou Cláudio Castro na cadeira do governador. 

Naquela campanha, obtivemos o apoio do Centro de Liderança Política, indicado pelo Carlos Portinho, hoje Senador. Ocorreram dois seminários, um no Rio e outro em São, coordenados por Leandro Piquet e bancados pelo PSD, por autorização de Gilberto Kassab. Não sei onde anda esse material, mas o PSD deve ter. 

Estamos a meio passo da ocasião de escolher quem governará o estado pelos próximos quatro anos e os candidatos se movimentam. Ao que vejo, não há muitos. O jornalista Ascânio Seleme publicou, no sábado, “E o Rio, como vota?”, para dizer que no páreo estão Marcelo Freixo e Claudio Castro. Freixo é uma interrogação sobre o que estaria disposto a fazer no governo do estado e o que de fato faria. Então, me resta dizer: na dúvida, não ultrapasse. Fiquemos onde estamos, porque está de bom tamanho. 

*Artigo publicado no Diário do Rio

Por Jackson Vasconcelos